Pov de Lucas
As paredes de concreto do galpão pareciam mais frias do que o habitual, refletindo o peso que eu sentia no peito. Estávamos todos à beira do limite. Matheus mal conseguia se controlar, e o restante de nós sabia que a fome o tornava perigoso — não por escolha, mas por necessidade.
Sentado em uma pilha de caixas velhas, olhei para Sara, que estava encostada na parede oposta, mexendo no celular. Ela parecia distraída, mas eu sabia que ela também estava preocupada.
— Sara, posso falar com você?
Ela ergueu o olhar, franzindo a testa por um momento, antes de se aproximar e sentar ao meu lado.
— O que foi?
Expliquei rapidamente o plano que vinha elaborando. Precisávamos sair dali e nos alimentar. E não só nós — Matheus e sua família também precisavam, antes que algo terrível acontecesse.
Mesmo sendo algo arriscado ela topou, pois ela também estava com muita fome. Liguei para Matheus e lhe expliquei o nosso plano e ele topou na hora. Ao chegarmos na casa de Matheus, ele e seus pais nos receberam com olhares cheios de ansiedade. Seu pai, um homem alto e de olhar cansado, parecia especialmente preocupado.
— Temos um plano. — Eu disse firme. — Vamos para uma cidade pequena, longe daqui. Nada de CCG, nada de olhos atentos.
Eles hesitaram, mas sabiam que não tinham escolha. A fome estava presente nos olhos de todos ali.
— Vamos pegar o carro. É arriscado, mas não temos outra opção. — Disse o pai do Matheus.
Deixei um bilhete para Pedro explicando rapidamente que precisaríamos sair por algumas horas. Sabia que ele ficaria furioso, mas isso era algo que não podíamos adiar.
•
Chegamos em uma pequena cidade, quase deserta àquela hora. Estacionamos perto de uma lanchonete de beira de estrada, iluminada apenas por um letreiro neon piscando. Matheus, Sara e eu entramos primeiro para observar o movimento.
Lá dentro, apenas alguns caminhoneiros ocupavam as mesas, mastigando hambúrgueres enquanto conversavam baixinho. Nada parecia fora do comum.
— Nada suspeito até agora. — Disse Sara ao meu lado.
— Vamos lá fora. Quero observar o movimento por aqui. — Eu disse pegando em sua mão e a conduzindo para fora.
Do lado de fora, a noite estava escura, apenas o som de alguns grilos quebrando o silêncio. Foi então que vimos a cena: um homem discutia com uma mulher na calçada, aparentemente uma garota de programa. Ele gesticulava de forma agressiva, enquanto ela tentava recuar.
— É nossa chance. — Matheus disse atento.
Nos aproximamos lentamente. Sara foi quem falou com a mulher, acalmando-a e a convencendo a ir embora. Assim que ela estava em segurança, voltamos nossa atenção para o homem.
Ele tentou protestar, mas não teve chance. O puxamos para uma área escura atrás da lanchonete, onde ninguém poderia nos ver. Foi rápido. Precisávamos ser eficientes e discretos.
Depois de nos alimentarmos, pegamos o suficiente para levar aos pais de Matheus. Já dentro do carro, liguei para o pai de Matheus para que ele nos encontrasse no carro.
“Podem sair. Está tudo tranquilo agora.” — Eu disse e logo encerrei a ligação.
Quando eles chegaram ao carro, entregamos o que havíamos trazido. Vi o alívio no rosto deles enquanto finalmente saciavam a fome. Depois de tudo finalizado, o pai de Matheus nos deixou no shopping, onde poderíamos seguir para o galpão. Descemos, analisando o entorno com cuidado. Nada parecia fora do lugar. Ainda assim, a tensão permanecia.
— Parece que estamos limpos. — Sara disse olhando ao redor.
— Vamos voltar. — Eu disse saindo do carro e pegando em sua mão. Nos despedimos e logo voltamos pro galpão.
Quando chegamos, Pedro já estava nos esperando, o semblante sério. Ele cruzou os braços e veio direto na minha direção.
— Onde vocês estavam? Eu já disse que sair sem avisar é perigoso! — Pedro disse nervoso.
— Eu avisei. Deixei um bilhete. E antes que você diga qualquer coisa, fizemos isso da forma mais segura possível. Sem testemunhas, sem rastros.
Pedro parecia prestes a explodir, mas Sara interveio.
— Lucas tá certo. Se não tivéssemos saído, seria pior. Você sabe disso. — Sara disse me ajudando com o meu irmão.
Pedro esfregou o rosto, frustrado, antes de finalmente suspirar.
— Eu só fico preocupado, ok? Sou seu irmão mais velho, é meu trabalho cuidar de você.
— E é meu trabalho cuidar de nós todos.
Depois de alguns segundos de silêncio, ele assentiu. Cada um foi para o seu canto, exaustos da noite. Enquanto me deitava no canto que chamava de cama, senti o peso do que havíamos feito, mas também o alívio de termos resolvido o problema, pelo menos por enquanto.
Amanhã seria outro dia, com novos perigos. Mas por hoje, estávamos bem.

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