Pov de Lucas
O vento frio da manhã assobia entre as árvores próximas, fazendo as folhas secas dançarem pelo chão. Estou encostado na parede de tijolos atrás da biblioteca, verificando o celular e esperando Matheus. Ele pediu para me encontrar aqui, longe dos olhares curiosos. Algo na mensagem dele parecia... desesperado.
Logo, ouço passos apressados. Matheus surge de trás de uma árvore, com a aparência desgastada. Seu rosto está pálido, os olhos mais escuros do que o normal, e ele parece inquieto, como se cada som ao redor o colocasse em alerta.
— Lucas, graças a Deus você veio. — Matheus disse parecendo agitado apensar do cansaço visível.
— Claro que vim. O que tá acontecendo?
Ele olha para os lados, certificando-se de que ninguém está ouvindo, antes de se aproximar. Sua voz sai baixa, quase um sussurro.
— Tem algo estranho acontecendo perto de casa. Vi movimentação de agentes. A CCG.
Meu coração acelera ao ouvir isso.
— Tem certeza?
— Absoluta. Eles não estavam disfarçados. Eram agentes mesmo. E por isso, ninguém da minha família saiu pra se alimentar.
Ele passa a mão pelo cabelo, visivelmente angustiado.
— Já faz dias, Lucas. Dias. E eu... eu não sei quanto tempo mais consigo aguentar.
Seus olhos me encaram com um brilho de desespero que corta fundo. Sei o que significa quando um ghoul passa muito tempo sem se alimentar. E não é bonito.
— Droga, isso é mais sério do que eu imaginava. — Digo pensativo.
— Ok, vamos resolver isso. Mas primeiro, você precisa se acalmar. Se perder o controle aqui, todo mundo vai perceber.
— Não é tão simples! Cada vez que ouço o som de alguém respirando, sinto que vou perder o controle.
Paro por um segundo, pensando no que posso fazer. Não há como levar Matheus para se alimentar sem colocar todos nós em risco. Mas talvez...
— Escuta, por enquanto, você precisa se camuflar. Ficar perto das pessoas, mas agir como um de nós. Se eles te virem isolado, vai chamar atenção.
— E se eu não conseguir me controlar? — Ele disse balançando a cabeça, nervoso.
— Você vai. Eu tô aqui, e vou te ajudar.
Logo o conduzi para dentro da escola. Caminhamos pelos corredores cheios de estudantes. Matheus segue ao meu lado, um pouco mais relaxado, mas ainda visivelmente desconfortável.
— Tenta focar em outra coisa. Olha ao redor. Tá vendo? Todo mundo aqui tá distraído. Ninguém vai perceber nada se você não der motivo.
Ele respira fundo, forçando um sorriso fraco enquanto tentamos nos misturar. Durante a aula até que foi um pouco mais tranquilo. No refeitório, pego dois sanduíches e entrego um a ele.
— Lucas, você sabe que eu não consigo comer isso. — Ele disse fazendo uma careta.
— Eu sei. Mas finge. Dá uma mordida e joga o resto fora depois. Assim ninguém vai desconfiar.
Ele hesita, mas obedece. A cena é estranha, quase irônica: um ghoul fingindo ser humano, enquanto eu, parte humano, tento ensinar como fazer isso. Depois de fingir ser humanos, fomos nos sentar no pátio, observando os outros estudantes ao longe. Matheus parece um pouco mais tranquilo agora, mas ainda há algo em seu olhar que me preocupa.
— Obrigado, Lucas. De verdade. Eu não sei o que faria sem você.
— Você faria o mesmo por mim.
Ficamos em silêncio por um tempo, cada um perdido em seus próprios pensamentos. No fundo, sei que isso é apenas uma solução temporária. Matheus e sua família precisam se alimentar, ou as consequências serão catastróficas.
— E se a CCG está mesmo tão perto assim, todos nós estamos em perigo. — Eu disse pensativo.
O que começou como um dia normal agora parece o início de algo muito maior — algo que não sei se estamos prontos para enfrentar.

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