Pov de Lucas

 

Olhei para a tela do meu celular e marcava 8 horas da noite. Depois que meu irmão e Daygo chegaram, deu pra notar o quanto eles estavam tensos. Eles contaram sobre o encontro que tiveram com os agentes e sobre as desconfianças. Era estranho pensar que algum ghoul estivessem nos entregando assim de bandeja pros caras da CCG.

 

Fui para uma parte do galpão onde fiz de quarto e me sentei na minha cama improvisada, olhei para o celular novamente, digitei uma mensagem anônima para a CCG, mas parei antes de enviar. A tela mostra minha expressão dividida entre o medo e a culpa.

 

 

Se eu fizer isso, posso proteger minha identidade. Mas a que custo? — Eu disse pensativo.

 

 

O celular vibra com uma mensagem de Matheus: “Precisamos conversar. Encontre-me amanhã na biblioteca.”

 

 

Talvez ele possa me ajudar... — Eu disse sussurrando.

 

 

Apaguei a mensagem que estava escrevendo e suspiro, colocando o celular de lado.

 

 

 

 

Enquanto isso...

 

 

Uma figura encapuzada observa a casa de Lucas à distância. Ela segura um dispositivo de comunicação.

 

 

O alvo está sendo monitorado. Não há movimentação suspeita... por enquanto. — A voz diz no dispositivo.

 

 

 

 

Pov de Sara

 

 

Na manhã seguinte eu e Lucas fomos pra escola um pouco mais cedo, precisávamos de um banho. Assim que chegamos fomos cada um para os respectivo vestiário. Retirei minhas roupas e logo fui pro chuveiro.

 

 

O som da água caindo ecoa pelo vestiário vazio, preenchendo o silêncio. A luz fluorescente pisca intermitentemente, mas estou acostumada com isso. A escola inteira parece mal cuidada, mas agora, isso pouco importa.

 

A água morna escorre sobre mim. A sensação é um alívio bem-vindo. Lavo os cabelos devagar, como se pudesse afastar o peso dos pensamentos junto com a sujeira. E, claro, meus pensamentos sempre acabam voltando para ele.

 

 

Fecho os olhos, tentando bloquear o nome que parece ecoar na minha cabeça ultimamente. Por que ele? Por que agora? Nunca foi assim. Sempre fomos apenas amigos. Apenas colegas de classe.

 

Mas algo mudou.

 

Lembro-me de como ele me olhou na última semana. Havia algo diferente no olhar dele. Algo que fez meu coração bater mais rápido, e, droga, isso me deixou irritada. Não com ele, mas comigo mesma.

 

Eu não posso. Não deveria.

 

Bato as mãos contra a parede fria do chuveiro, como se isso fosse me ajudar a recuperar o controle.

 

 

Pov de Lucas

 

 

 

O silêncio do vestiário é quase perturbador, quebrado apenas pelo som dos chuveiros pingando e o eco das portas de metal ao fundo. Estou sozinho aqui, o que é raro. Normalmente, o lugar está cheio de vozes e passos apressados. Hoje, só há eu e meus pensamentos.

 

Ligo o chuveiro e deixo a água quente cair sobre meus ombros. Fecho os olhos, permitindo que o calor alivie a tensão acumulada. No entanto, assim que me permito relaxar, ela surge na minha mente...

 

... Sara.

 

Respiro fundo, tentando afastar o rosto dela da minha mente, mas é inútil. Toda vez que tento me concentrar em outra coisa, lembro-me do som da risada dela, do jeito que ela ergue uma sobrancelha quando está irritada, ou de como seus olhos brilham quando ela está planejando algo.

 

Não deveria ser assim. Não com ela.

 

Em um flashback, lembro-me de Sara sentada sob uma árvore, rabiscando algo em seu caderno. Eu me aproximo, tentando não parecer nervoso. Quando ela me vê, sorri — um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

 

 

— Perdido de novo? — Ela disse com a voz calma.

 

— Talvez. Você sempre parece saber onde está indo. — Digo sorrindo.

 

 

Ela apenas balança a cabeça, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

 

 

— Alguém tem que saber, não é?

 

 

Eu queria dizer algo mais, algo que mostrasse o quanto admiro a força dela, mas as palavras ficaram presas. Como sempre.

 

Uma lembrança linda que tenho dela antes de tudo o que rolou. Passo as mãos pelo rosto, deixando a água levar o calor que subiu às minhas bochechas só de lembrar daquele momento.

 

O que eu faria se tivesse coragem?

 

Fico imaginando uma situação, ela está sentada sozinha, folheando um livro. Eu entro, determinado. Antes que ela possa dizer qualquer coisa, me sento ao lado dela.

 

 

— Eu preciso te dizer uma coisa. — Digo com determinação.

 

Ela me olha, confusa, mas curiosa. Esse olhar sempre me desmonta, mas desta vez, não desvio.

 

 

— Eu gosto de você, Sara. Não como amigo, não como aliado. Eu... gosto de você de verdade.

 

 

Por um instante, ela não diz nada. Depois, sorri — o sorriso que tanto amo, mais brilhante do que eu já vi antes.

 

 

— Finalmente.

 

Esse sorriso é suficiente para que eu esqueça todo o resto: a CCG, os ghouls, o caos em que vivemos. Por um momento, é só ela.

 

 

Abro os olhos e solto um suspiro, a realidade voltando com força. Não posso. Não agora. Ela já tem tanto com o que se preocupar. Isso só complicaria as coisas.

 

Fecho o chuveiro e pego a toalha, me enxugando devagar. Olho meu reflexo no espelho embaçado, encarando a dúvida nos meus próprios olhos.

 

Eu gosto dela. É claro que gosto. Mas nunca vou dizer. Nunca posso dizer.

 

Saio do vestiário, o cabelo ainda úmido, as roupas um pouco amassadas. Ao longe, vejo Sara conversando com Matheus. Ela ri de algo que ele diz, e, por um instante, esqueço de tudo.

 

Ela merece sorrir assim, sem preocupações. E eu não vou ser o motivo para tirar isso dela.

 

Ajeito minha mochila no ombro e sigo para o outro lado do corredor. Algumas coisas são melhores quando mantidas em segredo.

 

Eu sabia que meus sentimentos por Sara eram reais, mas também sabia que eles tinham um preço. E naquele momento, eu estava disposto a pagar com o silêncio.

 


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