Pov de Sara
A cada dia, as aulas pareciam se arrastar mais do que o normal. Era como se o calor daquela tarde abafada pesasse ainda mais sobre nós. Finalmente, o sinal tocou, e eu, Lucas e Matheus começamos a caminhada de volta ao galpão. Estávamos cansados, ansiosos para deixar a escola para trás por algumas horas.
Mas, claro, Mariana não podia nos dar paz. Ela apareceu de repente, como sempre fazia, surgindo na nossa frente com aquele sorriso irritantemente animado.
— Ei! Vocês não esqueceram do nosso encontro, né? — Mariana disse sorridente.
Nós trocamos olhares. Tentamos recusar, inventando desculpas de última hora, mas ela era insistente, praticamente nos arrastando para o shopping.
— Vai ser divertido, gente! Vocês precisam relaxar um pouco! — Ela disse enganchando seu braço em Matheus que estava visivelmente desconfortável.
Não tínhamos escolha. Cedemos e a seguimos até o boliche. Tentamos nos divertir, de verdade. Mariana fazia questão de tornar tudo “animado”, mas era impossível ignorar a tensão no ar. Foi então que notei.
Na área externa do boliche, perto da entrada, dois homens estavam parados. Eles não jogavam, não interagiam, nem pareciam interessados no lugar. Estavam apenas... ali. Observando.
Um deles virou a cabeça levemente na nossa direção, e meu coração acelerou. CCG.
Tentei disfarçar minha preocupação, mas sabia que Lucas e Matheus também tinham percebido. O olhar de Lucas cruzou com o meu, e trocamos um breve aceno de entendimento. Precisávamos sair dali.
Depois de mais alguns minutos forçando sorrisos, inventei uma desculpa.
— Gente, lembrei que temos algo urgente pra resolver. Matheus, Lucas, podemos ir? — Eu disse puxando os dois.
Não dei chance para objeções. Puxei os dois para fora do boliche, deixando Mariana para trás, ainda gritando algo sobre nos encontrarmos novamente. Do lado de fora, a sensação de alívio foi momentânea. Ainda sentia os olhos em nós, como se estivéssemos sendo seguidos. Começamos a andar, tomando direções aleatórias, passando por ruas movimentadas para garantir que não estávamos sendo perseguidos.
— Eles estavam nos observando. Os agentes da CCG. — Eu disse aflita.
— Você acha que eles sabem? Sobre a gente? — Matheus disse nervoso.
— Ainda não. Se soubessem, não estariam só olhando. Estariam agindo. — Lucas disse entrelaçando nossas mãos, o que me surpreendeu muito.
Concordei, mas a presença deles ali não era coincidência. A CCG raramente fazia movimentos tão públicos sem motivo. Depois de circularmos por um tempo e garantir que não havia ninguém nos seguindo, decidimos parar em um parque movimentado. O lugar estava cheio de pessoas, o que nos dava alguma segurança.
Lucas pegou o celular e ligou para o pai de Matheus, pedindo que ele viesse nos buscar.
— Melhor prevenir. Não quero arriscar. — Lucas disse me fazendo um leve carinho na mão.
Enquanto esperávamos, conversamos em sussurros sobre tudo o que tínhamos visto. Mariana estava se aproximando demais, e a coincidência de termos visto agentes da CCG na mesma noite que ela nos arrastou para o boliche era perturbadora.
— Não gosto disso. — Eu disse por fim. — Ela está nos expondo de propósito, tenho certeza.
Matheus parecia desconfortável, mas não disse nada. Ele sabia tão bem quanto nós que Mariana era um problema.
Pouco depois, o pai de Matheus chegou, e entramos no carro. Ele dirigiu por várias ruas diferentes, desviando e rodando pela cidade para garantir que ninguém estava nos seguindo antes de nos deixar a um quarteirão do galpão.
Quando chegamos, Pedro estava fora, então subimos direto para o andar onde ficávamos. Eu e Lucas conversamos por algum tempo, analisando os eventos do dia.
— Matheus não deve ir para a escola o resto da semana. Algo está errado. — Lucas disse preocupado.
— Concordo. Mariana está metida nisso, tenho certeza.
Lucas pegou o celular e mandou uma mensagem para Matheus, avisando-o para ficar longe da escola até termos certeza de que era seguro.
Naquela noite, fui dormir com uma sensação de inquietação. Algo grande estava prestes a acontecer, e eu sabia que precisávamos estar preparados para o que quer que fosse.

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