Pov de Sara

 

 

Os últimos três dias no galpão foram uma pausa no caos, um breve alívio. Eu e Lucas passávamos o tempo jogando baralho e conversando sobre coisas banais, como nossas infâncias. Pela primeira vez em muito tempo, senti que havia uma conexão entre nós, algo mais do que cumplicidade.

 

Ele falou da saudade de sua mãe, e por um instante, consegui ver o garoto vulnerável por trás de sua fachada confiante. Aquilo mexeu comigo, mas eu não deixei transparecer. Entre uma conversa e outra, trocávamos mensagens com Matheus, mas até ali, ele nos dava pouco retorno além de reclamar da insistência de Mariana.





Isso estava nos deixando tensos. Mariana era um mistério, e sua obsessão com Matheus não fazia sentido. Até que, no quarto dia, tudo mudou.

 

Era sábado, e Matheus parou de responder às mensagens.

 

Tentei me convencer de que ele só precisava de um tempo, mas a ansiedade estava me corroendo. Cada notificação no celular era uma falsa esperança. Lucas sentia a mesma tensão, eu podia ver em seu olhar.

 

Decidimos contar a Pedro e Daygo. Eles ouviram com atenção enquanto explicávamos sobre a insistência de Mariana e a falta de notícias de Matheus.

 

 

— Isso não tá certo. Vamos até a casa dele. — Pedro disse preocupado.

 

 

Pedro e Daygo foram até a casa de Matheus enquanto eu e Lucas ficávamos no galpão, aguardando notícias. Quando eles voltaram, seus rostos diziam tudo.

 

 

— A garota apareceu na casa dele, praticamente arrastou o Matheus pra sair. Nem deu tempo da família dele reagir. — Disse Pedro visivelmente abalado.

 

— Mariana. — Diz Lucas ficando pálido.

 

 

O nome pairou no ar como uma sentença. Não perdemos tempo. Nós quatro saímos à procura dele, rastreando cada lugar que ele costumava frequentar. Durante todo o dia, fomos de bairro em bairro, buscando pistas. Nenhum sinal. Era como se Matheus tivesse simplesmente desaparecido.

 

A noite caiu, e estávamos voltando para o galpão quando algo aconteceu. O parque estava deserto, silencioso demais para o horário.

 

De repente, cinco figuras surgiram, nos cercando. Não eram ghouls. Eram agentes da CCG, cada um equipado com armas pesadas e olhos treinados.

 

 

— Não se mexam. — O agente que parecia ser o líder disse.

 

 

Minha mente disparou. Eles sabiam. Eles estavam atrás de nós. Pedro deu um passo à frente, seu olhar desafiador.

 

 

— O que vocês querem? — Pedro disse firme.

 

 

O líder não respondeu de imediato, apenas ergueu a arma em nossa direção.

 

— Se fossem nos eliminar, já teriam feito isso. — Lucas respondeu o irmão.

 

 

Ele estava certo, mas o que isso significava? Eles estavam nos caçando, nos testando, ou talvez... nos observando para algo maior.

 

O ar estava carregado, e a tensão era palpável. Olhei para Lucas, depois para Pedro. Daygo parecia pronto para atacar a qualquer momento.

 

 

— E agora? — Eu disse nervosa.

 

— Agora a gente faz o que sempre fazemos. Sobrevive. — Pedro disse agitado.

 

E foi aí que tudo explodiu.

 

 

Pov de Pedro

 

A noite, que já estava tensa, desabou sobre nós como uma tempestade inesperada. Quando os cinco agentes avançaram, não houve aviso, hesitação ou piedade. Eles vieram como predadores, cada um empunhando uma quinque diferente, armas feitas para exterminar ghouls sem remorso.

 

Eu e Daygo não tínhamos escolha. Embora humanos, precisávamos nos defender, ou seríamos mortos no calor do confronto. Mas era evidente que nossa força não seria suficiente. Sara e Lucas, como um instinto automático, tomaram a frente.

 

 

— Espera! Somos humanos! — Gritei, tentando fazê-los ouvir.

 

 

Mas não havia razão naqueles olhos frios. Não importava o que éramos; éramos alvos. Tudo aconteceu rápido demais. Sara e Lucas lutavam como guerreiros em fúria, desviando e atacando com precisão. Eles não hesitavam. Era assustador e ao mesmo tempo... impressionante. Meu irmão mais novo, que eu sempre senti que precisava proteger, agora lutava como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros.

 

De repente, um grito cortou o ar.

 

 

— Não! - Sara estava em choque.

 

 

Olhei para ela e vi o horror em seus olhos. Um sexto agente havia surgido, empunhando uma quinque diferente das outras. O brilho da lâmina era sinistro, e quando Sara viu, foi como se algo nela quebrasse.

 

Ela ficou imóvel por um momento, e então, lágrimas surgiram em seus olhos.

 

 

— É a kagune do Matheus... — Ela disse chorando.

 

 

A revelação me atingiu como um soco no estômago, mas antes que pudesse reagir, Sara explodiu de ódio. Com um grito primal, ela foi para cima dos agentes como uma tempestade furiosa.

 

Ela atacava com tudo, cada movimento carregado de dor e raiva. Em poucos minutos, dois agentes estavam mortos, e os outros quatro gravemente feridos. Lucas lutava ao lado dela, seus golpes precisos e mortais.

 

Era difícil de assistir. Não parecia mais meu irmãozinho. Ele estava transformado, movido por algo mais profundo e sombrio.

 

Quando o último agente caiu no chão, gemendo de dor, eu soube que precisávamos sair dali imediatamente.

 

 

— Temos que ir! Agora! — Gritei.

 

 

Sara e Lucas estavam ofegantes, seus olhos ainda ardendo com a adrenalina. Não havia tempo para perguntas ou explicações. Pegamos o que restava de nossas forças e corremos como nunca, de volta ao galpão.

 

Chegamos ao galpão exaustos, os corpos cobertos de cortes e ferimentos, mas vivos. Sara caiu de joelhos no chão, o rosto enterrado nas mãos.

 

 

— Eles o mataram... usaram ele... — Ela disse entre soluços.

 

Lucas colocou a mão no ombro dela, mas não disse nada. Nem ele tinha palavras para aliviar aquela dor.

 

— Isso não vai ficar assim. Eles não têm o direito... — Eu disse, mas não consegui terminar.

 

 

Mas, por mais que minha raiva fosse verdadeira, eu sabia que estávamos no limite. Não éramos páreo para eles, pelo menos não assim. Precisávamos de um plano, algo maior do que apenas reagir.

 

Enquanto Sara chorava silenciosamente, e Lucas fitava o vazio, tomei uma decisão. Eles não tirariam mais ninguém de nós.

 

 

— A gente vai lutar. Mas primeiro, temos que sobreviver. — Eu consegui dizer, meu sangue fervilhava.

 

 

Era o início de algo maior. Um confronto inevitável. E eu sabia que não poderíamos vencer sozinhos.

 


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