Pov de Lucas
Os dias passavam devagar, arrastando-se como uma tempestade que não chega, mas deixa o ar pesado. O peso da perda de Matheus ainda estava sobre nós, uma sombra que nenhum de nós conseguia evitar. Seus pais, desolados, não conseguiram permanecer na cidade. Depois de um enterro simbólico, com um caixão vazio, eles se foram. A dor de perder seu único filho para a CCG era insuportável, e eu não podia culpá-los por buscar recomeçar longe daqui.
Mas nós... nós não podíamos fugir. Não ainda. Não enquanto tantas perguntas estavam sem resposta.
A ausência de Mariana era como um espinho cravado na mente de Sara, e, se eu fosse honesto, na minha também. Onde ela estava? O que estava tramando? E Samuel... ele desapareceu de uma forma que nos deixava apreensivos. Ele não era do tipo que sumia sem avisar.
Mais estranho ainda era o silêncio da CCG. Depois daquele ataque no parque, eles simplesmente... desapareceram. Nenhuma movimentação suspeita, nenhum agente à vista. O que era ainda mais preocupante.
Era o tipo de calma que te faz segurar a respiração, esperando o próximo golpe.
Pedro e Daygo estavam mergulhados em relatórios e mapas que haviam conseguido nos últimos dias, tentando prever os próximos movimentos da CCG. A tensão era palpável no ar. Eu sabia que precisávamos nos alimentar, e, mais do que isso, manter Pedro e Daygo com forças. Sem muita escolha, me voluntariei.
— Sara, vamos sair para buscar comida para os dois. Já que está tudo quieto, é a melhor hora para isso. — Eu disse pegando meu boné e colocando.
Ela apenas assentiu, pegando o casaco. O brilho em seus olhos dizia que ela não estava só pensando em comida. Mariana ainda rondava sua mente, e eu sabia que, se a encontrássemos, ela cumpriria sua promessa de "pegar ela com estilo".
As ruas estavam mais vazias do que de costume, um reflexo do medo que pairava sobre a cidade. As pessoas sabiam que algo estava errado, mesmo que não conseguissem identificar o quê.
— Você notou como todo mundo parece... distante? Como se estivessem esperando algo? — Eu disse pra quebrar a tensão.
— Claro que sim. Essa calmaria toda não é normal. E Mariana... por que ela sumiu justo agora? É como se ela soubesse que estamos procurando por ela.
Andamos em silêncio por um tempo, atentos a qualquer movimento suspeito. Nosso objetivo era simples: pegar comida para Pedro e Daygo, e nos alimentar no caminho. Mas, ao mesmo tempo, cada esquina, cada beco vazio parecia uma armadilha esperando para se fechar.
Chegamos a uma área mais afastada da cidade, onde costumávamos nos alimentar. Encontramos nossa presa — um homem bêbado cambaleando por uma rua pouco iluminada. Tudo aconteceu rápido, eficiente. Não podíamos nos dar ao luxo de demorar. Depois de nos alimentarmos, colocamos algumas sacolas de comida para viagem e seguimos para o próximo ponto.
Quando voltamos ao galpão, Pedro estava mais irritado do que de costume.
— Vocês demoraram. Alguma coisa aconteceu? — Pedro perguntou nervoso.
— Não, tudo está... calmo. Calmo demais. — Respondi lhe entregando a sacola de comida.
Pedro e Daygo trocaram olhares, compartilhando a mesma inquietação que sentíamos. A sensação de que algo estava prestes a acontecer era quase sufocante.
— Precisamos encontrar Samuel. Ele pode ter informações que nos ajudem. E precisamos nos preparar para sair daqui. — Eu disse retirando meu boné.
Pedro assentiu, mas havia algo em seus olhos que me dizia que ele não queria fugir. Ele queria lutar.
Enquanto todos se dispersavam, voltei ao meu canto, tentando organizar meus pensamentos. Mas não conseguia me livrar da sensação de que essa calmaria era apenas o prelúdio de algo muito pior.
Já era madrugada quando Sara aparece em meu campo de visão, com a fisionomia triste, então bati a mão ao meu lado para que ela se sentasse.
— Não consegue dormir?
— Não... Sempre que durmo tenho pesadelos com aquele dia. — Ela disse se sentando em meu lado. — E você?
— Estou preocupado com os últimos acontecimentos. Tenho medo que eles possam invadir o galpão a qualquer momento.
— Vamos acreditar que eles não sabem onde estamos.... — Ela disse deitando a cabeça em meu ombro, o que me deixou tenso. — Se não, vamos enlouquecer e precisamos estar descansados caso tenhamos que sair correndo.
— Eu queria ter essa sua confiança. — Eu disse a abraçando de lado.
— Vamos viver um dia de cada vez. Temos muito o que fazer ainda.
— Então durma pra você ficar descansada.
— Posso dormir com você?
Serio que isso estava acontecendo? Por fora eu estava indiferente, mas por dentro eu estava soltando fogos.
— Pode...
Logo me deitei e a puxei a aninhando em meus braços. Pela primeira vez na vida eu iria dormir feliz com ela em meus braços e poder ter uma noite de sono tranquilo.

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