Pov de Lucas

 

Os dias passavam devagar, arrastando-se como uma tempestade que não chega, mas deixa o ar pesado. O peso da perda de Matheus ainda estava sobre nós, uma sombra que nenhum de nós conseguia evitar. Seus pais, desolados, não conseguiram permanecer na cidade. Depois de um enterro simbólico, com um caixão vazio, eles se foram. A dor de perder seu único filho para a CCG era insuportável, e eu não podia culpá-los por buscar recomeçar longe daqui.

 

Mas nós... nós não podíamos fugir. Não ainda. Não enquanto tantas perguntas estavam sem resposta.

 

A ausência de Mariana era como um espinho cravado na mente de Sara, e, se eu fosse honesto, na minha também. Onde ela estava? O que estava tramando? E Samuel... ele desapareceu de uma forma que nos deixava apreensivos. Ele não era do tipo que sumia sem avisar.

 

Mais estranho ainda era o silêncio da CCG. Depois daquele ataque no parque, eles simplesmente... desapareceram. Nenhuma movimentação suspeita, nenhum agente à vista. O que era ainda mais preocupante.

 

Era o tipo de calma que te faz segurar a respiração, esperando o próximo golpe.

 

Pedro e Daygo estavam mergulhados em relatórios e mapas que haviam conseguido nos últimos dias, tentando prever os próximos movimentos da CCG. A tensão era palpável no ar. Eu sabia que precisávamos nos alimentar, e, mais do que isso, manter Pedro e Daygo com forças. Sem muita escolha, me voluntariei.

 

 

— Sara, vamos sair para buscar comida para os dois. Já que está tudo quieto, é a melhor hora para isso. — Eu disse pegando meu boné e colocando.

 

 

Ela apenas assentiu, pegando o casaco. O brilho em seus olhos dizia que ela não estava só pensando em comida. Mariana ainda rondava sua mente, e eu sabia que, se a encontrássemos, ela cumpriria sua promessa de "pegar ela com estilo".

 

As ruas estavam mais vazias do que de costume, um reflexo do medo que pairava sobre a cidade. As pessoas sabiam que algo estava errado, mesmo que não conseguissem identificar o quê.

 

 

— Você notou como todo mundo parece... distante? Como se estivessem esperando algo? — Eu disse pra quebrar a tensão.

 

— Claro que sim. Essa calmaria toda não é normal. E Mariana... por que ela sumiu justo agora? É como se ela soubesse que estamos procurando por ela.

 

Andamos em silêncio por um tempo, atentos a qualquer movimento suspeito. Nosso objetivo era simples: pegar comida para Pedro e Daygo, e nos alimentar no caminho. Mas, ao mesmo tempo, cada esquina, cada beco vazio parecia uma armadilha esperando para se fechar.

 

Chegamos a uma área mais afastada da cidade, onde costumávamos nos alimentar. Encontramos nossa presa — um homem bêbado cambaleando por uma rua pouco iluminada. Tudo aconteceu rápido, eficiente. Não podíamos nos dar ao luxo de demorar. Depois de nos alimentarmos, colocamos algumas sacolas de comida para viagem e seguimos para o próximo ponto.

 

Quando voltamos ao galpão, Pedro estava mais irritado do que de costume.

 

 

— Vocês demoraram. Alguma coisa aconteceu? — Pedro perguntou nervoso.

 

— Não, tudo está... calmo. Calmo demais. — Respondi lhe entregando a sacola de comida.

 

 

Pedro e Daygo trocaram olhares, compartilhando a mesma inquietação que sentíamos. A sensação de que algo estava prestes a acontecer era quase sufocante.

 

 

— Precisamos encontrar Samuel. Ele pode ter informações que nos ajudem. E precisamos nos preparar para sair daqui. — Eu disse retirando meu boné.

 

 

Pedro assentiu, mas havia algo em seus olhos que me dizia que ele não queria fugir. Ele queria lutar.

 

Enquanto todos se dispersavam, voltei ao meu canto, tentando organizar meus pensamentos. Mas não conseguia me livrar da sensação de que essa calmaria era apenas o prelúdio de algo muito pior.

 

Já era madrugada quando Sara aparece em meu campo de visão, com a fisionomia triste, então bati a mão ao meu lado para que ela se sentasse.

 

 

— Não consegue dormir?

 

— Não... Sempre que durmo tenho pesadelos com aquele dia. — Ela disse se sentando em meu lado. — E você?

 

— Estou preocupado com os últimos acontecimentos. Tenho medo que eles possam invadir o galpão a qualquer momento.

 

— Vamos acreditar que eles não sabem onde estamos.... — Ela disse deitando a cabeça em meu ombro, o que me deixou tenso. — Se não, vamos enlouquecer e precisamos estar descansados caso tenhamos que sair correndo.

 

— Eu queria ter essa sua confiança. — Eu disse a abraçando de lado.

 

— Vamos viver um dia de cada vez. Temos muito o que fazer ainda.

 

— Então durma pra você ficar descansada.

 

— Posso dormir com você?

 

 

Serio que isso estava acontecendo? Por fora eu estava indiferente, mas por dentro eu estava soltando fogos.

 

— Pode...

 

 

Logo me deitei e a puxei a aninhando em meus braços. Pela primeira vez na vida eu iria dormir feliz com ela em meus braços e poder ter uma noite de sono tranquilo.

 

 

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Pov de Sara

 

 

Os últimos três dias no galpão foram uma pausa no caos, um breve alívio. Eu e Lucas passávamos o tempo jogando baralho e conversando sobre coisas banais, como nossas infâncias. Pela primeira vez em muito tempo, senti que havia uma conexão entre nós, algo mais do que cumplicidade.

 

Ele falou da saudade de sua mãe, e por um instante, consegui ver o garoto vulnerável por trás de sua fachada confiante. Aquilo mexeu comigo, mas eu não deixei transparecer. Entre uma conversa e outra, trocávamos mensagens com Matheus, mas até ali, ele nos dava pouco retorno além de reclamar da insistência de Mariana.





Isso estava nos deixando tensos. Mariana era um mistério, e sua obsessão com Matheus não fazia sentido. Até que, no quarto dia, tudo mudou.

 

Era sábado, e Matheus parou de responder às mensagens.

 

Tentei me convencer de que ele só precisava de um tempo, mas a ansiedade estava me corroendo. Cada notificação no celular era uma falsa esperança. Lucas sentia a mesma tensão, eu podia ver em seu olhar.

 

Decidimos contar a Pedro e Daygo. Eles ouviram com atenção enquanto explicávamos sobre a insistência de Mariana e a falta de notícias de Matheus.

 

 

— Isso não tá certo. Vamos até a casa dele. — Pedro disse preocupado.

 

 

Pedro e Daygo foram até a casa de Matheus enquanto eu e Lucas ficávamos no galpão, aguardando notícias. Quando eles voltaram, seus rostos diziam tudo.

 

 

— A garota apareceu na casa dele, praticamente arrastou o Matheus pra sair. Nem deu tempo da família dele reagir. — Disse Pedro visivelmente abalado.

 

— Mariana. — Diz Lucas ficando pálido.

 

 

O nome pairou no ar como uma sentença. Não perdemos tempo. Nós quatro saímos à procura dele, rastreando cada lugar que ele costumava frequentar. Durante todo o dia, fomos de bairro em bairro, buscando pistas. Nenhum sinal. Era como se Matheus tivesse simplesmente desaparecido.

 

A noite caiu, e estávamos voltando para o galpão quando algo aconteceu. O parque estava deserto, silencioso demais para o horário.

 

De repente, cinco figuras surgiram, nos cercando. Não eram ghouls. Eram agentes da CCG, cada um equipado com armas pesadas e olhos treinados.

 

 

— Não se mexam. — O agente que parecia ser o líder disse.

 

 

Minha mente disparou. Eles sabiam. Eles estavam atrás de nós. Pedro deu um passo à frente, seu olhar desafiador.

 

 

— O que vocês querem? — Pedro disse firme.

 

 

O líder não respondeu de imediato, apenas ergueu a arma em nossa direção.

 

— Se fossem nos eliminar, já teriam feito isso. — Lucas respondeu o irmão.

 

 

Ele estava certo, mas o que isso significava? Eles estavam nos caçando, nos testando, ou talvez... nos observando para algo maior.

 

O ar estava carregado, e a tensão era palpável. Olhei para Lucas, depois para Pedro. Daygo parecia pronto para atacar a qualquer momento.

 

 

— E agora? — Eu disse nervosa.

 

— Agora a gente faz o que sempre fazemos. Sobrevive. — Pedro disse agitado.

 

E foi aí que tudo explodiu.

 

 

Pov de Pedro

 

A noite, que já estava tensa, desabou sobre nós como uma tempestade inesperada. Quando os cinco agentes avançaram, não houve aviso, hesitação ou piedade. Eles vieram como predadores, cada um empunhando uma quinque diferente, armas feitas para exterminar ghouls sem remorso.

 

Eu e Daygo não tínhamos escolha. Embora humanos, precisávamos nos defender, ou seríamos mortos no calor do confronto. Mas era evidente que nossa força não seria suficiente. Sara e Lucas, como um instinto automático, tomaram a frente.

 

 

— Espera! Somos humanos! — Gritei, tentando fazê-los ouvir.

 

 

Mas não havia razão naqueles olhos frios. Não importava o que éramos; éramos alvos. Tudo aconteceu rápido demais. Sara e Lucas lutavam como guerreiros em fúria, desviando e atacando com precisão. Eles não hesitavam. Era assustador e ao mesmo tempo... impressionante. Meu irmão mais novo, que eu sempre senti que precisava proteger, agora lutava como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros.

 

De repente, um grito cortou o ar.

 

 

— Não! - Sara estava em choque.

 

 

Olhei para ela e vi o horror em seus olhos. Um sexto agente havia surgido, empunhando uma quinque diferente das outras. O brilho da lâmina era sinistro, e quando Sara viu, foi como se algo nela quebrasse.

 

Ela ficou imóvel por um momento, e então, lágrimas surgiram em seus olhos.

 

 

— É a kagune do Matheus... — Ela disse chorando.

 

 

A revelação me atingiu como um soco no estômago, mas antes que pudesse reagir, Sara explodiu de ódio. Com um grito primal, ela foi para cima dos agentes como uma tempestade furiosa.

 

Ela atacava com tudo, cada movimento carregado de dor e raiva. Em poucos minutos, dois agentes estavam mortos, e os outros quatro gravemente feridos. Lucas lutava ao lado dela, seus golpes precisos e mortais.

 

Era difícil de assistir. Não parecia mais meu irmãozinho. Ele estava transformado, movido por algo mais profundo e sombrio.

 

Quando o último agente caiu no chão, gemendo de dor, eu soube que precisávamos sair dali imediatamente.

 

 

— Temos que ir! Agora! — Gritei.

 

 

Sara e Lucas estavam ofegantes, seus olhos ainda ardendo com a adrenalina. Não havia tempo para perguntas ou explicações. Pegamos o que restava de nossas forças e corremos como nunca, de volta ao galpão.

 

Chegamos ao galpão exaustos, os corpos cobertos de cortes e ferimentos, mas vivos. Sara caiu de joelhos no chão, o rosto enterrado nas mãos.

 

 

— Eles o mataram... usaram ele... — Ela disse entre soluços.

 

Lucas colocou a mão no ombro dela, mas não disse nada. Nem ele tinha palavras para aliviar aquela dor.

 

— Isso não vai ficar assim. Eles não têm o direito... — Eu disse, mas não consegui terminar.

 

 

Mas, por mais que minha raiva fosse verdadeira, eu sabia que estávamos no limite. Não éramos páreo para eles, pelo menos não assim. Precisávamos de um plano, algo maior do que apenas reagir.

 

Enquanto Sara chorava silenciosamente, e Lucas fitava o vazio, tomei uma decisão. Eles não tirariam mais ninguém de nós.

 

 

— A gente vai lutar. Mas primeiro, temos que sobreviver. — Eu consegui dizer, meu sangue fervilhava.

 

 

Era o início de algo maior. Um confronto inevitável. E eu sabia que não poderíamos vencer sozinhos.

 


Próximo

 



Pov de Sara

 

A cada dia, as aulas pareciam se arrastar mais do que o normal. Era como se o calor daquela tarde abafada pesasse ainda mais sobre nós. Finalmente, o sinal tocou, e eu, Lucas e Matheus começamos a caminhada de volta ao galpão. Estávamos cansados, ansiosos para deixar a escola para trás por algumas horas.

 

Mas, claro, Mariana não podia nos dar paz. Ela apareceu de repente, como sempre fazia, surgindo na nossa frente com aquele sorriso irritantemente animado.

 

 

— Ei! Vocês não esqueceram do nosso encontro, né? — Mariana disse sorridente.

 

 

Nós trocamos olhares. Tentamos recusar, inventando desculpas de última hora, mas ela era insistente, praticamente nos arrastando para o shopping.

 

 

— Vai ser divertido, gente! Vocês precisam relaxar um pouco! — Ela disse enganchando seu braço em Matheus que estava visivelmente desconfortável.

 

 

Não tínhamos escolha. Cedemos e a seguimos até o boliche. Tentamos nos divertir, de verdade. Mariana fazia questão de tornar tudo “animado”, mas era impossível ignorar a tensão no ar. Foi então que notei.

 

Na área externa do boliche, perto da entrada, dois homens estavam parados. Eles não jogavam, não interagiam, nem pareciam interessados no lugar. Estavam apenas... ali. Observando.

 

Um deles virou a cabeça levemente na nossa direção, e meu coração acelerou. CCG.

 

Tentei disfarçar minha preocupação, mas sabia que Lucas e Matheus também tinham percebido. O olhar de Lucas cruzou com o meu, e trocamos um breve aceno de entendimento. Precisávamos sair dali.

 

 

Depois de mais alguns minutos forçando sorrisos, inventei uma desculpa.

 

 

— Gente, lembrei que temos algo urgente pra resolver. Matheus, Lucas, podemos ir? — Eu disse puxando os dois.

 

 

Não dei chance para objeções. Puxei os dois para fora do boliche, deixando Mariana para trás, ainda gritando algo sobre nos encontrarmos novamente. Do lado de fora, a sensação de alívio foi momentânea. Ainda sentia os olhos em nós, como se estivéssemos sendo seguidos. Começamos a andar, tomando direções aleatórias, passando por ruas movimentadas para garantir que não estávamos sendo perseguidos.

 

 

— Eles estavam nos observando. Os agentes da CCG. — Eu disse aflita.

 

 

— Você acha que eles sabem? Sobre a gente? — Matheus disse nervoso.

 

— Ainda não. Se soubessem, não estariam só olhando. Estariam agindo. — Lucas disse entrelaçando nossas mãos, o que me surpreendeu muito.

 

 

Concordei, mas a presença deles ali não era coincidência. A CCG raramente fazia movimentos tão públicos sem motivo. Depois de circularmos por um tempo e garantir que não havia ninguém nos seguindo, decidimos parar em um parque movimentado. O lugar estava cheio de pessoas, o que nos dava alguma segurança.

 

Lucas pegou o celular e ligou para o pai de Matheus, pedindo que ele viesse nos buscar.

 

 

— Melhor prevenir. Não quero arriscar. — Lucas disse me fazendo um leve carinho na mão.

 

 

Enquanto esperávamos, conversamos em sussurros sobre tudo o que tínhamos visto. Mariana estava se aproximando demais, e a coincidência de termos visto agentes da CCG na mesma noite que ela nos arrastou para o boliche era perturbadora.

 

— Não gosto disso. — Eu disse por fim. — Ela está nos expondo de propósito, tenho certeza.

 

 

Matheus parecia desconfortável, mas não disse nada. Ele sabia tão bem quanto nós que Mariana era um problema.

 

Pouco depois, o pai de Matheus chegou, e entramos no carro. Ele dirigiu por várias ruas diferentes, desviando e rodando pela cidade para garantir que ninguém estava nos seguindo antes de nos deixar a um quarteirão do galpão.

 

Quando chegamos, Pedro estava fora, então subimos direto para o andar onde ficávamos. Eu e Lucas conversamos por algum tempo, analisando os eventos do dia.

 

 

— Matheus não deve ir para a escola o resto da semana. Algo está errado. — Lucas disse preocupado.

 

— Concordo. Mariana está metida nisso, tenho certeza.

 

 

Lucas pegou o celular e mandou uma mensagem para Matheus, avisando-o para ficar longe da escola até termos certeza de que era seguro.

 

Naquela noite, fui dormir com uma sensação de inquietação. Algo grande estava prestes a acontecer, e eu sabia que precisávamos estar preparados para o que quer que fosse.

 

 

 


Nota Inicial: Matheus e Mariana na imagem.





Pov de Sara

 

 

O sol estava forte, refletindo na quadra enquanto a aula de Educação Física seguia em ritmo animado. Sentada no banco lateral, observava Lucas e Matheus jogarem futebol. Matheus parecia mais relaxado do que nos últimos dias, e Lucas, como sempre, exalava aquela confiança natural que ele nem sabia que tinha.

 

 

Por um momento, me permiti esquecer os problemas. Era bom ver os dois se divertindo, rindo, como se tudo estivesse normal. Mas minha paz durou pouco. Mariana apareceu.

 

E, como sempre, ela parecia vinda direto do inferno para testar minha paciência.

 

 

— Oi, Sara! Tudo bem? — Mariana disse toda sorridente.

 

 

Eu mal tive tempo de responder antes que ela começasse a tagarelar, cheia de sorrisos e com aquele tom irritante de doçura exagerada.

 

 

— Nossa, o Matheus tá arrasando hoje, né? Ele é tão talentoso, tão bonito, tão... tudo!

 

 

Revirei os olhos, lutando para manter a compostura. O jeito dela falar de Matheus me deixava com os pelos da nuca arrepiados. Algo estava errado com essa aproximação repentina, e meu instinto gritava para eu manter um olho nela.

 

 

— Pois é... Ele é bom no que faz. — Eu disse sarcasticamente.

 

 

Tentei soar casual, mas minha voz saiu mais cortante do que eu pretendia. Claro, Mariana não percebeu ou, se percebeu, ignorou completamente. Eu queria dispensá-la, mas ela parecia grudada no banco como se fosse parte dele.

 

 

Mais tarde, estávamos no refeitório. Eu, Lucas, Matheus e outros alunos ocupávamos uma das mesas, tentando aproveitar a pausa para jogar conversa fora. Estava começando a relaxar quando... Mariana apareceu de novo.

 

 

Ela se aproximou com aquele sorriso brilhante, carregando a bandeja como se estivesse em um desfile. Sentou-se ao nosso lado sem ser convidada e começou a falar sem parar, focando, claro, em Matheus.

 

 

— Matheus, você sabia que é incrível no futebol? Nossa, eu nem gosto de esportes, mas por você, eu assistiria todos os jogos! -— Ela disse descaradamente.

 

 

Vi o desconforto estampado no rosto de Matheus, mas ele, como sempre, foi educado e tentou desviar o assunto. Mariana, no entanto, não desistiu.

 

 

— Aliás, o que acha de sairmos juntos?

 

 

A mesa ficou em silêncio. Matheus olhou para ela, claramente em choque.

 

 

— Se não quiser ir só comigo, podemos fazer um encontro de casais! Você e eu, Matheus, e a Sara e o Lucas!

 

 

Arregalei os olhos, surpresa com a audácia dela. Olhei para Lucas, que parecia tão desconfortável quanto Matheus. Antes que pudéssemos reagir, Mariana levantou-se com um sorriso triunfante.

 

 

— Perfeito! Então já está combinado. Vou pensar em algo incrível pra gente fazer. Até mais tarde!

 

 

Ela saiu saltitando, deixando um rastro de tensão no ar.

 

 

— Isso foi... estranho. — Matheus disse anda em choque.

 

— Estranho é um eufemismo. — Respondeu Lucas fazendo uma careta engraçada.

 

 

Olhei para Matheus e suspirei.

 

 

— Isso não vai acabar bem. — Eu disse bufando.

 

 

Voltamos para a sala após o almoço, e a sensação de que Mariana estava aprontando algo só crescia. Eu não confiava nela nem por um segundo, e essa insistência em se aproximar de Matheus só reforçava minha desconfiança.

 

Durante a aula, tentei me concentrar, mas minha mente estava em alerta constante. Lucas percebeu meu incômodo e, vez ou outra, roçava levemente a mão na minha, como se quisesse me acalmar. Era um gesto sutil, mas funcionava.

 

O sinal final tocou, e enquanto todos saíam, eu tinha uma certeza: Mariana era um problema, e nós não iríamos nos livrar dela tão cedo.

 


Próximo

 




Pov de Lucas

 

 

As paredes de concreto do galpão pareciam mais frias do que o habitual, refletindo o peso que eu sentia no peito. Estávamos todos à beira do limite. Matheus mal conseguia se controlar, e o restante de nós sabia que a fome o tornava perigoso — não por escolha, mas por necessidade.

 

Sentado em uma pilha de caixas velhas, olhei para Sara, que estava encostada na parede oposta, mexendo no celular. Ela parecia distraída, mas eu sabia que ela também estava preocupada.

 

 

— Sara, posso falar com você?

 

 

Ela ergueu o olhar, franzindo a testa por um momento, antes de se aproximar e sentar ao meu lado.

 

 

— O que foi?

 

 

Expliquei rapidamente o plano que vinha elaborando. Precisávamos sair dali e nos alimentar. E não só nós — Matheus e sua família também precisavam, antes que algo terrível acontecesse.

 

Mesmo sendo algo arriscado ela topou, pois ela também estava com muita fome. Liguei para Matheus e lhe expliquei o nosso plano e ele topou na hora. Ao chegarmos na casa de Matheus, ele e seus pais nos receberam com olhares cheios de ansiedade. Seu pai, um homem alto e de olhar cansado, parecia especialmente preocupado.

 

 

— Temos um plano. — Eu disse firme. — Vamos para uma cidade pequena, longe daqui. Nada de CCG, nada de olhos atentos.

 

 

Eles hesitaram, mas sabiam que não tinham escolha. A fome estava presente nos olhos de todos ali.

 

 

— Vamos pegar o carro. É arriscado, mas não temos outra opção. — Disse o pai do Matheus.

 

 

Deixei um bilhete para Pedro explicando rapidamente que precisaríamos sair por algumas horas. Sabia que ele ficaria furioso, mas isso era algo que não podíamos adiar.

 

 

 

 

Chegamos em uma pequena cidade, quase deserta àquela hora. Estacionamos perto de uma lanchonete de beira de estrada, iluminada apenas por um letreiro neon piscando. Matheus, Sara e eu entramos primeiro para observar o movimento.

 

Lá dentro, apenas alguns caminhoneiros ocupavam as mesas, mastigando hambúrgueres enquanto conversavam baixinho. Nada parecia fora do comum.

 

 

— Nada suspeito até agora. — Disse Sara ao meu lado.

 

— Vamos lá fora. Quero observar o movimento por aqui. — Eu disse pegando em sua mão e a conduzindo para fora.

 

 

Do lado de fora, a noite estava escura, apenas o som de alguns grilos quebrando o silêncio. Foi então que vimos a cena: um homem discutia com uma mulher na calçada, aparentemente uma garota de programa. Ele gesticulava de forma agressiva, enquanto ela tentava recuar.

 

 

— É nossa chance. — Matheus disse atento.

 

 

Nos aproximamos lentamente. Sara foi quem falou com a mulher, acalmando-a e a convencendo a ir embora. Assim que ela estava em segurança, voltamos nossa atenção para o homem.

 

Ele tentou protestar, mas não teve chance. O puxamos para uma área escura atrás da lanchonete, onde ninguém poderia nos ver. Foi rápido. Precisávamos ser eficientes e discretos.

 

Depois de nos alimentarmos, pegamos o suficiente para levar aos pais de Matheus. Já dentro do carro, liguei para o pai de Matheus para que ele nos encontrasse no carro.

 

 

“Podem sair. Está tudo tranquilo agora.” — Eu disse e logo encerrei a ligação.

 

 

Quando eles chegaram ao carro, entregamos o que havíamos trazido. Vi o alívio no rosto deles enquanto finalmente saciavam a fome. Depois de tudo finalizado, o pai de Matheus nos deixou no shopping, onde poderíamos seguir para o galpão. Descemos, analisando o entorno com cuidado. Nada parecia fora do lugar. Ainda assim, a tensão permanecia.

 

 

— Parece que estamos limpos. — Sara disse olhando ao redor.

 

— Vamos voltar. — Eu disse saindo do carro e pegando em sua mão. Nos despedimos e logo voltamos pro galpão.

 

 

Quando chegamos, Pedro já estava nos esperando, o semblante sério. Ele cruzou os braços e veio direto na minha direção.

 

 

— Onde vocês estavam? Eu já disse que sair sem avisar é perigoso! — Pedro disse nervoso.

 

— Eu avisei. Deixei um bilhete. E antes que você diga qualquer coisa, fizemos isso da forma mais segura possível. Sem testemunhas, sem rastros.

 

 

Pedro parecia prestes a explodir, mas Sara interveio.

 

 

— Lucas tá certo. Se não tivéssemos saído, seria pior. Você sabe disso. — Sara disse me ajudando com o meu irmão.

 

 

Pedro esfregou o rosto, frustrado, antes de finalmente suspirar.

 

 

— Eu só fico preocupado, ok? Sou seu irmão mais velho, é meu trabalho cuidar de você.

 

— E é meu trabalho cuidar de nós todos.

 

 

Depois de alguns segundos de silêncio, ele assentiu. Cada um foi para o seu canto, exaustos da noite. Enquanto me deitava no canto que chamava de cama, senti o peso do que havíamos feito, mas também o alívio de termos resolvido o problema, pelo menos por enquanto.

 

Amanhã seria outro dia, com novos perigos. Mas por hoje, estávamos bem.

 

 

 Próximo

 



Pov de Lucas

 

 

O vento frio da manhã assobia entre as árvores próximas, fazendo as folhas secas dançarem pelo chão. Estou encostado na parede de tijolos atrás da biblioteca, verificando o celular e esperando Matheus. Ele pediu para me encontrar aqui, longe dos olhares curiosos. Algo na mensagem dele parecia... desesperado.

 

Logo, ouço passos apressados. Matheus surge de trás de uma árvore, com a aparência desgastada. Seu rosto está pálido, os olhos mais escuros do que o normal, e ele parece inquieto, como se cada som ao redor o colocasse em alerta.

 

 

— Lucas, graças a Deus você veio. — Matheus disse parecendo agitado apensar do cansaço visível.

 

— Claro que vim. O que tá acontecendo?

 

 

Ele olha para os lados, certificando-se de que ninguém está ouvindo, antes de se aproximar. Sua voz sai baixa, quase um sussurro.

 

 

— Tem algo estranho acontecendo perto de casa. Vi movimentação de agentes. A CCG.

 

 

Meu coração acelera ao ouvir isso.

 

 

— Tem certeza?

 

— Absoluta. Eles não estavam disfarçados. Eram agentes mesmo. E por isso, ninguém da minha família saiu pra se alimentar.

 

 

Ele passa a mão pelo cabelo, visivelmente angustiado.

 

 

— Já faz dias, Lucas. Dias. E eu... eu não sei quanto tempo mais consigo aguentar.

 

 

Seus olhos me encaram com um brilho de desespero que corta fundo. Sei o que significa quando um ghoul passa muito tempo sem se alimentar. E não é bonito.

 

 

— Droga, isso é mais sério do que eu imaginava. — Digo pensativo.

 

— Ok, vamos resolver isso. Mas primeiro, você precisa se acalmar. Se perder o controle aqui, todo mundo vai perceber.

 

— Não é tão simples! Cada vez que ouço o som de alguém respirando, sinto que vou perder o controle.

 

 

Paro por um segundo, pensando no que posso fazer. Não há como levar Matheus para se alimentar sem colocar todos nós em risco. Mas talvez...

 

 

— Escuta, por enquanto, você precisa se camuflar. Ficar perto das pessoas, mas agir como um de nós. Se eles te virem isolado, vai chamar atenção.

 

— E se eu não conseguir me controlar? — Ele disse balançando a cabeça, nervoso.

 

— Você vai. Eu tô aqui, e vou te ajudar.

 

 

Logo o conduzi para dentro da escola. Caminhamos pelos corredores cheios de estudantes. Matheus segue ao meu lado, um pouco mais relaxado, mas ainda visivelmente desconfortável.

 

 

— Tenta focar em outra coisa. Olha ao redor. Tá vendo? Todo mundo aqui tá distraído. Ninguém vai perceber nada se você não der motivo.

 

 

Ele respira fundo, forçando um sorriso fraco enquanto tentamos nos misturar. Durante a aula até que foi um pouco mais tranquilo. No refeitório, pego dois sanduíches e entrego um a ele.

 

 

— Lucas, você sabe que eu não consigo comer isso. — Ele disse fazendo uma careta.

 

 

— Eu sei. Mas finge. Dá uma mordida e joga o resto fora depois. Assim ninguém vai desconfiar.

 

 

Ele hesita, mas obedece. A cena é estranha, quase irônica: um ghoul fingindo ser humano, enquanto eu, parte humano, tento ensinar como fazer isso. Depois de fingir ser humanos, fomos nos sentar no pátio, observando os outros estudantes ao longe. Matheus parece um pouco mais tranquilo agora, mas ainda há algo em seu olhar que me preocupa.

 

 

— Obrigado, Lucas. De verdade. Eu não sei o que faria sem você.

 

 

— Você faria o mesmo por mim.

 

Ficamos em silêncio por um tempo, cada um perdido em seus próprios pensamentos. No fundo, sei que isso é apenas uma solução temporária. Matheus e sua família precisam se alimentar, ou as consequências serão catastróficas.

 

 — E se a CCG está mesmo tão perto assim, todos nós estamos em perigo. — Eu disse pensativo.

  

O que começou como um dia normal agora parece o início de algo muito maior — algo que não sei se estamos prontos para enfrentar.

 


Próximo

 



Pov de Lucas

 

Olhei para a tela do meu celular e marcava 8 horas da noite. Depois que meu irmão e Daygo chegaram, deu pra notar o quanto eles estavam tensos. Eles contaram sobre o encontro que tiveram com os agentes e sobre as desconfianças. Era estranho pensar que algum ghoul estivessem nos entregando assim de bandeja pros caras da CCG.

 

Fui para uma parte do galpão onde fiz de quarto e me sentei na minha cama improvisada, olhei para o celular novamente, digitei uma mensagem anônima para a CCG, mas parei antes de enviar. A tela mostra minha expressão dividida entre o medo e a culpa.

 

 

Se eu fizer isso, posso proteger minha identidade. Mas a que custo? — Eu disse pensativo.

 

 

O celular vibra com uma mensagem de Matheus: “Precisamos conversar. Encontre-me amanhã na biblioteca.”

 

 

Talvez ele possa me ajudar... — Eu disse sussurrando.

 

 

Apaguei a mensagem que estava escrevendo e suspiro, colocando o celular de lado.

 

 

 

 

Enquanto isso...

 

 

Uma figura encapuzada observa a casa de Lucas à distância. Ela segura um dispositivo de comunicação.

 

 

O alvo está sendo monitorado. Não há movimentação suspeita... por enquanto. — A voz diz no dispositivo.

 

 

 

 

Pov de Sara

 

 

Na manhã seguinte eu e Lucas fomos pra escola um pouco mais cedo, precisávamos de um banho. Assim que chegamos fomos cada um para os respectivo vestiário. Retirei minhas roupas e logo fui pro chuveiro.

 

 

O som da água caindo ecoa pelo vestiário vazio, preenchendo o silêncio. A luz fluorescente pisca intermitentemente, mas estou acostumada com isso. A escola inteira parece mal cuidada, mas agora, isso pouco importa.

 

A água morna escorre sobre mim. A sensação é um alívio bem-vindo. Lavo os cabelos devagar, como se pudesse afastar o peso dos pensamentos junto com a sujeira. E, claro, meus pensamentos sempre acabam voltando para ele.

 

 

Fecho os olhos, tentando bloquear o nome que parece ecoar na minha cabeça ultimamente. Por que ele? Por que agora? Nunca foi assim. Sempre fomos apenas amigos. Apenas colegas de classe.

 

Mas algo mudou.

 

Lembro-me de como ele me olhou na última semana. Havia algo diferente no olhar dele. Algo que fez meu coração bater mais rápido, e, droga, isso me deixou irritada. Não com ele, mas comigo mesma.

 

Eu não posso. Não deveria.

 

Bato as mãos contra a parede fria do chuveiro, como se isso fosse me ajudar a recuperar o controle.

 

 

Pov de Lucas

 

 

 

O silêncio do vestiário é quase perturbador, quebrado apenas pelo som dos chuveiros pingando e o eco das portas de metal ao fundo. Estou sozinho aqui, o que é raro. Normalmente, o lugar está cheio de vozes e passos apressados. Hoje, só há eu e meus pensamentos.

 

Ligo o chuveiro e deixo a água quente cair sobre meus ombros. Fecho os olhos, permitindo que o calor alivie a tensão acumulada. No entanto, assim que me permito relaxar, ela surge na minha mente...

 

... Sara.

 

Respiro fundo, tentando afastar o rosto dela da minha mente, mas é inútil. Toda vez que tento me concentrar em outra coisa, lembro-me do som da risada dela, do jeito que ela ergue uma sobrancelha quando está irritada, ou de como seus olhos brilham quando ela está planejando algo.

 

Não deveria ser assim. Não com ela.

 

Em um flashback, lembro-me de Sara sentada sob uma árvore, rabiscando algo em seu caderno. Eu me aproximo, tentando não parecer nervoso. Quando ela me vê, sorri — um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

 

 

— Perdido de novo? — Ela disse com a voz calma.

 

— Talvez. Você sempre parece saber onde está indo. — Digo sorrindo.

 

 

Ela apenas balança a cabeça, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

 

 

— Alguém tem que saber, não é?

 

 

Eu queria dizer algo mais, algo que mostrasse o quanto admiro a força dela, mas as palavras ficaram presas. Como sempre.

 

Uma lembrança linda que tenho dela antes de tudo o que rolou. Passo as mãos pelo rosto, deixando a água levar o calor que subiu às minhas bochechas só de lembrar daquele momento.

 

O que eu faria se tivesse coragem?

 

Fico imaginando uma situação, ela está sentada sozinha, folheando um livro. Eu entro, determinado. Antes que ela possa dizer qualquer coisa, me sento ao lado dela.

 

 

— Eu preciso te dizer uma coisa. — Digo com determinação.

 

Ela me olha, confusa, mas curiosa. Esse olhar sempre me desmonta, mas desta vez, não desvio.

 

 

— Eu gosto de você, Sara. Não como amigo, não como aliado. Eu... gosto de você de verdade.

 

 

Por um instante, ela não diz nada. Depois, sorri — o sorriso que tanto amo, mais brilhante do que eu já vi antes.

 

 

— Finalmente.

 

Esse sorriso é suficiente para que eu esqueça todo o resto: a CCG, os ghouls, o caos em que vivemos. Por um momento, é só ela.

 

 

Abro os olhos e solto um suspiro, a realidade voltando com força. Não posso. Não agora. Ela já tem tanto com o que se preocupar. Isso só complicaria as coisas.

 

Fecho o chuveiro e pego a toalha, me enxugando devagar. Olho meu reflexo no espelho embaçado, encarando a dúvida nos meus próprios olhos.

 

Eu gosto dela. É claro que gosto. Mas nunca vou dizer. Nunca posso dizer.

 

Saio do vestiário, o cabelo ainda úmido, as roupas um pouco amassadas. Ao longe, vejo Sara conversando com Matheus. Ela ri de algo que ele diz, e, por um instante, esqueço de tudo.

 

Ela merece sorrir assim, sem preocupações. E eu não vou ser o motivo para tirar isso dela.

 

Ajeito minha mochila no ombro e sigo para o outro lado do corredor. Algumas coisas são melhores quando mantidas em segredo.

 

Eu sabia que meus sentimentos por Sara eram reais, mas também sabia que eles tinham um preço. E naquele momento, eu estava disposto a pagar com o silêncio.

 


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